Filosofia e política (II): a natureza da atividade filosófica

Dando continuidade ao raciocínio iniciado no posterior anterior, devemos dizer: Ok, a filosofia vem antes das ciências particulares, mas o que ela faz por essas ciências? Em outras palavras: qual a relação entre filosofia e conhecimento?

Nesse ponto, creio que é preciso fazer um disclaimer. Claro que essas questões são realmente complexas demais para serem resolvidas em um blog. Aliás, a noção mesma de resolvê-las é problemática. O que fazemos atualmente na universidade é recortar essas questões maiores em pedaços mais digeríveis e produzir trabalhos acadêmicos minuciosos sobre o que a bibliografia diz sobre cada pedaço. Cabe, portanto, a pergunta: por que se dar o trabalho de discutí-las em um blog?

Bom, hoje eu compreendedo que, em certa medida, a universidade realmente precisa desse alto grau de especialização para tratar desses problemas com o rigor necessário. A universidade, afinal, é uma instituição e, como tal, precisa ter normas internas de produtividade que não podem se basear em quantas horas seus funcionários gastam pensando sobre grandes questões. Essa tensão entre uma atividade eminentemente interior e uma instituição formal me parece ser algo da própria natureza da experiência humana e, como tal, algo que não pode nunca ser inteiramente “solucionado”. Por outro lado, também me parece que essas “grandes questões” são igualmente incontornáveis. Embora a carreira de um acadêmico possa se concentrar em questões extremamente particulares - a noção que o termo “x” adquire na obra do autor “y” - em suas próprias reflexões ele estará constantemente se voltando para as grandes questões (O que é conhecimento? O que é verdade? O que é a justiça?), e nunca lhe parecerá satisfatório se limitar a saber o que y pensa sobre x. Ora, mas se essas questões estão sempre passando pelas nossas cabeças, e se elas não ‘cabem’ em artigos acadêmicos, um bom modo de discuti-las é por meio de ensaios - o que me parece bastante apropriado para um blog. Por isso, o leitor fica avisado de que o segue é apenas uma tentativa de pensar sobre esses problemas - e faça ele disso o que quiser.

Mas voltando ao problema: a afirmação de que a filosofia está, de certo modo, no fundamento das ciências só ganha significado a partir de uma determinada concepção do que seja a filosofia em si mesma. E aqui mais uma vez nos deparamos com o problema de multiplicidade de perspectivas: há os que afirmam que seu objetivo é explicar o mundo, outros que é mostrar a impossibilidade de explicar o mundo, e ainda os que querem transformar o mundo. De um ponto de vista acadêmico é evidentemente impossível reduzir todas essas perspectivas a um super-sistema intelectual que explique todas essas diferenças, mas do ponto de vista pessoal é igualmente impossível não formar uma posição própria sobre esse problema, mesmo que essa posição esteja continuamente sujeita a revisões ao longo da vida. O que se segue, portanto, é a tentativa de elaborar uma posição sobre esse problema.

Quando nos deparamos com um problema que sucita respostas contraditórias entre pessoas sensatas, parece-me razoável supor que existe uma maneira de equacionar o problema de modo que essas contradições se resolvam em outro plano. Talvez cada pessoa esteja percebendo um aspecto da questão, de modo que a divergência seja apenas um problema de perspectiva. Creio que a questão do conhecimento filosófico é um exemplo disso: tem alguma razão aqueles que são mais dogmáticos, assim como tem alguma razão os que são mais céticos. Por exemplo, é comum ouvirmos hoje que é impossível conhecer a verdade; alguns chegam a afirmar que essa pretensão estaria mesmo na origem de vários males contemporâneos. Considero esse tipo de posição insustentável, simplesmente porque todo ceticismo é fundamentalmente auto-contraditório (afinal, é a posição que afirma a impossibilidade das afirmações), mas a facilidade com que essa posição ganha adeptos me parece indicar que ela aponta para algo de verdadeiro sobre a natureza do conhecimento.

Bastante influenciado por Platão - como o leitor certamente já sabe - eu acredito na possibilidade de um conhecimento verdadeiro sobre a realidade. Nesse sentido, acho importante lembrar que, para Platão, os objetivos inteligíveis - as idéias ou formas - são algo inteiramente distinto da concepção moderna de “conceito”. Hoje em dia, esses termos adquirem a noção de construções abstratas, de projeções mentais que utilizamos para organizar uma série de fenômenos. Para Platão, as idéias não eram produções subjetivas; elas eram algo externo ao homem, algo que estava presente na própria estrutura da realidade e, por isso, era percebido e não criado pelo filosófo. Isso me parece uma noção fundamental. Embora boa parte do trabalho científico e filosófico envolva realmente a criação subjetiva de definições, o conhecimento não pode ser compreendido apenas como um jogo realizado dentre de um sistema reduzido à mente do sujeito - pois seria, nesse caso, impossível distinguir a atividade filosófica de um delírio psicológico. Apesar de toda produção de conhecimento ser fundamentalmente uma criação pessoal e, portanto, subjetiva, essa criação possui uma direção: ela é o esforço em perceber algo que está fora do sujeito, que é justamente o inteligível, ou seja, aquele aspecto da realidade que pode ser apreendido intelectualmente. Nesse sentido, o inteligível é o que está além da dimensão psicológica do sujeito e, por isso mesmo, oferece um ponto de apoio objetivo para a construção do conhecimento.

Parece-me interessante, nesse sentido, que os filósofos gregos tenham explicado a percepção intelectual usando uma analogia com a visão (o termo moderno teoria é derivado do termo grego para “assistir” ou “observar”). Quando vemos algo, nós sabemos intuitivamente o que estamos vendo, mas é difícil traduzir essa visão em palavras; e por melhor que seja nossa descrição, ela será sempre apenas uma aproximação da visão direta. Isso me parece ser uma ilustração perfeita da diferença entre a atividade filosófica e o conhecimento sistematizado: o filósofo procura constantemente adquirir essa ‘visão’ do inteligível e ocasionalmente consegue vislumbrar algo dessa dimensão; o conhecimento sistematizado, por sua vez, é apenas uma tentativa de construir um edifício lógico a partir desses vislumbres. Essa construção é necessária para poder falar dessa visão original, mas ela nunca pode ser identificada com a própria visão - além disso, uma nova percepção do inteligível pode tornar necessária a reconstrução todo o edifício para que esse permaneça coerente com o que foi percebido.

É interessante notar que a visão é também algo intrinsecamente imperfeito. Se a iluminação for fraca, se o objetivo estiver distante, ou mesmo se houver muitos elementos semelhantes em um mesmo cenário, é fácil nos confundirmos ou projetarmos algo da nossa imaginação sobre o que nossos sentidos captaram. Creio que isso não estava ausente das considerações dos filósofos gregos ao usar essa analogia. Hoje em dia, o termo teoria adquire um valor forte, algo próximo de um conhecimento exato. No entanto, se entendermos o termo como percepção intelectual somos forçados a perceber a fragilidade desse ato: ele equivale a ter um vislumbre do inteligível, a perceber algo da realidade; percepção esta que inevitavelmente nos chega misturada com nossas projeções, com o ruído do ambiente e com a falta de distinção própria dos objetos de sutil composição. O esforço filosófico, portanto, consiste justamente em apurar essa visão e, por isso, faz sentido pensar na filosofia mais como uma atividade do que como um conhecimento. Ela é fundamentalmente a tentava de enxergar uma porção maior do inteligível, e de fazê-lo com mais clareza. Mas a filosofia é também conhecimento, pois embora esse esforço não permita ao filósofo criar um retrato perfeito da realidade, ele consegue de todo modo perceber algo dela, e esse algo é o conhecimento filosófico possível até aquele momento. A filosofia, portanto, começa com um ato de percepção intelectual e, depois, se traduz em um retrato imperfeito desse ato, e esse retrato é justamente o conhecimento filosófico.

Por isso, entendo a relação do homem com o conhecimento do seguinte modo: estamos todos imersos em uma realidade que não conhecemos bem; a vida passa rápido demais, e nossa atenção raramente se fixa em alguma coisa por tempo suficiente para compreendê-la. Enquanto isso, nossa imaginação e os lugares comuns da linguagem formam um conjunto de hábitos intelectuais que nos protegem do esforço de tentar realmente enxergar algo da realidade. O homem comum - que pode ter nominalmente a profissão de cientista ou filósofo - é justamente aquele que é passivamente arrastado por esses hábitos e passa toda sua vida sem conseguir ir muito além deles; ele percebe algo da realidade, mas essa percepção logo se perde em meio ao ruído do ambiente. O filósofo é o sujeito que tenta parar o tempo: como no mito de Er, o filósofo lança uma olhar sobre toda a existência, como se estive acima dela. O problema, claro, é que isso dura apenas um instante, e o mesmo filósofo logo mergulha novamente no tumulto da existência, quase esquecendo por completo o que “viu” naquele instante. Por isso, embora o filósofo consiga aprender algo do inteligível, o conhecimento filosófico é sempre essa mistura de ruído e intelecção e, por isso, sempre algo incompleto, imperfeito, e sujeito a reformulações contínuas. Com isso em mente, podemos conciliar a experiência do cético, que não quer reduzir a realidade a um esquema abstrato, e a experiência do dogmático, que quer preservar a experiência da percepção da realidade.

Voltando agora ao problema inicial, podemos compreender melhor a relação entre filosofia e ciência. O espírito científico quer sempre progredir: catalogar mais fenômenos, conduzir mais experimentos, construir mais modelos. O espírito filosófico, por outro lado, caminha na direção inversa: ele procura remeter os princípios fundamentais do conhecimento para a dimensão do inteligível, freqüentemente descobrindo algo que lhe leva a repensar todo o edifício em novas bases. A ciência busca expandir a aplicação de certos princípios a novos elementos da realidade; a filosofia busca expandir nossa compreensão desses princípios, ampliando a própria visão que temos da realidade; um movimento leva à sistematização e o outro nos leva a reestruturar nossos sistemas. Não são, portanto, movimentos antagônicos; são etapas complementares do mesmo processo de tentar compreender o mundo, em toda a expressão do termo.

Portanto, quando nos afastamos de problemas específicos para retornar à filosofia, o que estamos tentando fazer é expandir nossa visão do problema inicial - o que talvez nos leve a descobrir que o problema em questão nem era um problema real, ou que talvez fizesse parte de outro problema, ou ainda que talvez estivessemos misturando questões inteiramente distintas entre si. Por isso, a filosofia é um campo de problematização e não de solução: sua função, de certo modo, é desmontar discursos estabelecidos para abrir espaço para novas intuições sobre a realidade. Evidentemente, esse é um trabalho tanto negativo quanto positivo: abandonamos um discurso antigo porque alcançamos uma nova visão sobre o que estamos tentando entender.

Nesse sentido, é interessante notar que o aprendizado filosófico é algo bastante distinto da “aquisição de cultura”, como se julga com tanta frequência. Adquirir cultura é adquirir um conjunto de informações e explicações sobre o mundo; aprender filosofia é buscar princípios inteligíveis que freqüentemente levarão a uma problematização de qualquer cultura. Por isso mesmo, lemos a obra de Platão pelo que há de filosófico nela, e não simplesmente em busca da cultura grega. Evidentemente, é imprenscindível conhecer essa cultura para interpretarmos seus diálogos, mas ela é apenas o meio que Platão utilizou para encontrar algo que estava muito além do horizonte intelectual do seu tempo. Por isso, mesmo para alguém que admira os filósofos clássicos, estudar filosofia não é tentar se tornar grego. É tentar refazer o esforço que alguns gregos em particular fizeram ao tentar perceber algo que estava além da cultura de suas épocas.

Partindo disso, podemos começar a entender porque a relação entre filosofia e política é especialmente problemática. A linha que separa a discussão política da luta ideológica é sempre muito tênue. Os ideólogos possuem uma explicação definitiva sobre o mundo e se dedicam a tentar convencer os outros da veracidade dessa explicação. Os filósofos, por outro lado, estão sempre prontos a problematizar qualquer explicação, caso encontrem indícios que os levem a raciocinar em outro caminho. Por isso, toda ideologia tende se tornar um bloco explicativo rígido, enquanto a filosofia é o esforço constante em descobrir os aspectos da realidade ignorados pelas explicações correntes. Por sua própria natureza, portanto, o filósofo é sempre alguém que não se harmoniza com corrente cultural ou política alguma; ela pode eventualmente ter preferências nesse campo, mas nunca se ajusta perfeitamente a elas, justamente por estar sempre voltado para a busca do inteligível que, por definição, está fora da cultura e de qualquer discurso pré-estabelecido.

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