Filosofia e política (I): a prioridade da filosofia

Comecei a me interessar por política muito antes de estudar filosofia. No entanto, logo que comecei a estudá-la, percebi que devia considerá-la como um campo de discussão, ou talvez de conhecimento, intrinsecamente mais fundamental do que os demais. Em outras palavras, a filosofia não era uma “espécie do mesmo gênero” da psicologia, sociologia ou biologia; ela deveria, na verdade, ser considerada um gênero a parte.

Isso me ocorreu logo no início da graduação em psicologia. Bastante empolgado, comecei a ler sobre as disputas entre as várias correntes e a me perguntar o que aquela multiplicidade de sistemas implicava para a investigação sobre as questões básicas da psicologia. Por isso, vi-me forçado a estudar epistemologia, e depois teoria do conhecimento, para tentar entender o fundamento dessas divergências. Em outras palavras: esse foi o “espanto” que me levou a estudar filosofia.

Claro que aí me deparei com o mesmo problema: há ainda mais escolas filosóficas que escolas de psicologia. No entanto, por trás, ou por baixo, ou ainda em cima (escolha o leitor sua posição preferida) de boa parte das divergências entre escolas filosóficas, existiam algumas noções gerais que me pareciam razoáveis; principalmente, a de que a filosofia é o campo de investigação dedicado justamente aos problemas que, por serem instrisecamente amplos demais, ou fundamentais demais, escapavam ao campo de qualquer ciência específica. Por exemplo, que exista uma ciência que estuda a biologia dos seres é bastante razoável. Mas será possível uma ciência que estude a cientificidade da biologia? É a velha história: existem regras, mas não existem regras para escolher regras; existe um método, mas não um método para escolher métodos. Toda ciência, portanto, parece se apoiar em algo que permanece externo, e prévio, à própria ciência: e isto é a filosofia.

Certamente essa diferença de gênero é em grande parte camuflada por causa da extensão da burocracia universitária. O observador externo olha para a universidade e, vendo os cursos de Psicologia, Direito e Serviço Social ao lado do curso de Filosofia, conclue imediatamente que todos esses termos representam espécies do mesmo gênero, isto é, que cada um desses termos assinalam profissões diferentes. Para piorar ainda mais as coisas, esses observadores se matriculam na instituição, não percebem o engano inicial e logo passam a acreditar que pertecem a algo como uma “classe profissional de filósofos”. O problema certamente tem uma dimensão sociológica e política - que passa pela reivindicação da obrigatoriedade do ensino de filosofia para garantir o emprego dos novos bacharéis - mas vamos nos contentar por ora em discutir sua dimensão epistemológica.

Por causa da natureza da competição burocrática - assunto que merece um post à parte - todo membro da universidade entende o que acabo de afirmar como a defesa de privilégios para um dos grupos de “pesquisadores”, ou seja, como se de algum modo eu estivesse reivindicando vantagens para o filósofo frente aos físicos, químicos e engenheiros - que realmente são aqueles que encontram resultados mais palpáveis em seus estudos. No entanto, não é disso que se trata: a prioridade da filosofia em relação às pesquisas particulares não significa que haja uma distinção entre dois grupos de pesquisadores ou mesmo entre duas etapas de uma pesquisa. A distinção é de ordem lógica e cognitiva, por assim dizer; e me parece que não é nem mesmo exatamente de ordem cronológica.

Encontramos um exemplo bastante favorável a essa posição em Ludwig von Mises (exemplos não são provas, eu sei, mas posts de blog não são tratados; são ensaios que, antes de provar, pretendem apenas insinuar), autor de um monumental tratado de economia. É verdade que a economia é um caso-limite; mas se não chega a ser definitivamente uma das hard sciences, é ao menos distante o suficiente das humanidades para que não a acusem de ser mera literatura; por isso, serve ao meu propósito de mostrar a prioridade da filosofia em relação à ciência em geral. Dêem uma olhada ao menos no indíce do livro do velho Mises (antes, linkado no original, e aqui, para a tradução do Donald Stewart Jr. no OrdemLivre.org). Antes de mergulhar nos problemas priopriamente econômicos - sistema monetário, teoria dos preços, valor do trabalho - ele se dedica cuidadosamente a discutir os princípios fundamentais utilizados na discussão subseqüente. É possível discutir se esses princípios são realmente bons - há quem se incomode com os sinais de kantismo - mas é inegável que esses princípios são ao mesmo tempo necessários para a discussão científica e externos à ciência da economia propriamente dita. É necessário, portanto, uma filosofia da economia para sabermos em que caminho a ciência econômica deve prosseguir (e, talvez, o inverso também faça algum sentido: a observação da prática científica alimenta a reflexão sobre os princípios). Mas os economistas não precisam ficar apreensivos, nem os professores de filosofia, assanhados; não estamos pregando a subjugação de um departamento a outro; estamos falando, isso sim, da distinção entre dois tipos de funções “cognitivas’, por assim dizer, que o próprio Mises, aliás, reune na mesma pessoa.

Nos últimas parágrafos, evidentemente, toquei em uma série de problemas complicados, e a prudência manda alerta que há, evidentemente, várias nuances que só poderiam ser resolvidas com um estudo mais cuidadoso da história da ciência e das discussões filosóficas sobre o assunto - estudo que ainda não fiz, nem provavelmente farei no prazo de alguns anos. No entanto, creio que isso é suficiente para apontar uma das noções que adquiriram uma posição fundamental no modo como penso sobre essas questões: antes dos problemas específicos, há esses problemas fundamentais, e destes cuida a filosofia.

Quando entramos na política, portanto, encontramos uma série de discussões que, a meu ver, deveriam ser remetidos antes ao seu fundamento filosófico. Questões como a definição de estado, de bem público, de coerção, de mercado, de direitos humanos, deveriam vir muito antes da defesa de posições políticas específicas. Isso, claro, se quisermos discutir filosofia política, e não meramente entrar em uma competição ideológica. Por isso mesmo, creio que ao invés de inundá-los com minhas opiniões, nosso tempo será melhor gasto discutindo alguns desses problemas fundamentais - começando, como acabamos de fazer, pela necessidade mesma de voltar aos fundamentos. Esse é, portanto, o objetivo dessa série de posts que agora se inicia - e que, aviso, progredirá por caminhos tortos e cronologia desconhecida. Como tudo na vida, aliás.

  1. [...] continuidade ao raciocínio iniciado no posterior anterior, devemos dizer: Ok, a filosofia vem antes das ciências particulares, mas o que ela faz por essas [...]

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