Liberdade na Estrada

Posted in Uncategorized on October 3rd, 2009 by lucasmafaldo – Be the first to comment

Amanhã irei me juntar à equipe do Ordem Livre para fazer algo extremamente inusitado: uma série de palestras por boa parte das capitais brasileiras. Sairemos de Porto Alegre e iremos até Fortaleza. O primeiro evento é na próxima segunda. Confiram a programação e levem os amigos para o evento em suas cidades: http://www.ordemlivre.org/liberdadenaestrada

Por motivos óbvios, esse blog fica em recesso até novembro - mas espero vê-los antes nas palestras.

O texto da semana passada…

Posted in Uncategorized on September 17th, 2009 by lucasmafaldo – Be the first to comment

… saiu só nessa semana, no site do Ordem Livre.  Uma tentativa de explicar os diferentes tipos de competição, na burocracia e no livre-mercado. O fato de que ser a primeira que predomina entre nós explica muito a miséria do legado que herdamos. Se não leram ainda, dêem uma passadinha por lá.

Semana que vem, espero trazer novidades (mas talvez não traga textos, pois vou participar de um evento na universidade). Até.

Filosofia e política (II): a natureza da atividade filosófica

Posted in Uncategorized on September 17th, 2009 by lucasmafaldo – Be the first to comment

Dando continuidade ao raciocínio iniciado no posterior anterior, devemos dizer: Ok, a filosofia vem antes das ciências particulares, mas o que ela faz por essas ciências? Em outras palavras: qual a relação entre filosofia e conhecimento?

Nesse ponto, creio que é preciso fazer um disclaimer. Claro que essas questões são realmente complexas demais para serem resolvidas em um blog. Aliás, a noção mesma de resolvê-las é problemática. O que fazemos atualmente na universidade é recortar essas questões maiores em pedaços mais digeríveis e produzir trabalhos acadêmicos minuciosos sobre o que a bibliografia diz sobre cada pedaço. Cabe, portanto, a pergunta: por que se dar o trabalho de discutí-las em um blog?

Bom, hoje eu compreendedo que, em certa medida, a universidade realmente precisa desse alto grau de especialização para tratar desses problemas com o rigor necessário. A universidade, afinal, é uma instituição e, como tal, precisa ter normas internas de produtividade que não podem se basear em quantas horas seus funcionários gastam pensando sobre grandes questões. Essa tensão entre uma atividade eminentemente interior e uma instituição formal me parece ser algo da própria natureza da experiência humana e, como tal, algo que não pode nunca ser inteiramente “solucionado”. Por outro lado, também me parece que essas “grandes questões” são igualmente incontornáveis. Embora a carreira de um acadêmico possa se concentrar em questões extremamente particulares - a noção que o termo “x” adquire na obra do autor “y” - em suas próprias reflexões ele estará constantemente se voltando para as grandes questões (O que é conhecimento? O que é verdade? O que é a justiça?), e nunca lhe parecerá satisfatório se limitar a saber o que y pensa sobre x. Ora, mas se essas questões estão sempre passando pelas nossas cabeças, e se elas não ‘cabem’ em artigos acadêmicos, um bom modo de discuti-las é por meio de ensaios - o que me parece bastante apropriado para um blog. Por isso, o leitor fica avisado de que o segue é apenas uma tentativa de pensar sobre esses problemas - e faça ele disso o que quiser.

Mas voltando ao problema: a afirmação de que a filosofia está, de certo modo, no fundamento das ciências só ganha significado a partir de uma determinada concepção do que seja a filosofia em si mesma. E aqui mais uma vez nos deparamos com o problema de multiplicidade de perspectivas: há os que afirmam que seu objetivo é explicar o mundo, outros que é mostrar a impossibilidade de explicar o mundo, e ainda os que querem transformar o mundo. De um ponto de vista acadêmico é evidentemente impossível reduzir todas essas perspectivas a um super-sistema intelectual que explique todas essas diferenças, mas do ponto de vista pessoal é igualmente impossível não formar uma posição própria sobre esse problema, mesmo que essa posição esteja continuamente sujeita a revisões ao longo da vida. O que se segue, portanto, é a tentativa de elaborar uma posição sobre esse problema.

Quando nos deparamos com um problema que sucita respostas contraditórias entre pessoas sensatas, parece-me razoável supor que existe uma maneira de equacionar o problema de modo que essas contradições se resolvam em outro plano. Talvez cada pessoa esteja percebendo um aspecto da questão, de modo que a divergência seja apenas um problema de perspectiva. Creio que a questão do conhecimento filosófico é um exemplo disso: tem alguma razão aqueles que são mais dogmáticos, assim como tem alguma razão os que são mais céticos. Por exemplo, é comum ouvirmos hoje que é impossível conhecer a verdade; alguns chegam a afirmar que essa pretensão estaria mesmo na origem de vários males contemporâneos. Considero esse tipo de posição insustentável, simplesmente porque todo ceticismo é fundamentalmente auto-contraditório (afinal, é a posição que afirma a impossibilidade das afirmações), mas a facilidade com que essa posição ganha adeptos me parece indicar que ela aponta para algo de verdadeiro sobre a natureza do conhecimento.

Bastante influenciado por Platão - como o leitor certamente já sabe - eu acredito na possibilidade de um conhecimento verdadeiro sobre a realidade. Nesse sentido, acho importante lembrar que, para Platão, os objetivos inteligíveis - as idéias ou formas - são algo inteiramente distinto da concepção moderna de “conceito”. Hoje em dia, esses termos adquirem a noção de construções abstratas, de projeções mentais que utilizamos para organizar uma série de fenômenos. Para Platão, as idéias não eram produções subjetivas; elas eram algo externo ao homem, algo que estava presente na própria estrutura da realidade e, por isso, era percebido e não criado pelo filosófo. Isso me parece uma noção fundamental. Embora boa parte do trabalho científico e filosófico envolva realmente a criação subjetiva de definições, o conhecimento não pode ser compreendido apenas como um jogo realizado dentre de um sistema reduzido à mente do sujeito - pois seria, nesse caso, impossível distinguir a atividade filosófica de um delírio psicológico. Apesar de toda produção de conhecimento ser fundamentalmente uma criação pessoal e, portanto, subjetiva, essa criação possui uma direção: ela é o esforço em perceber algo que está fora do sujeito, que é justamente o inteligível, ou seja, aquele aspecto da realidade que pode ser apreendido intelectualmente. Nesse sentido, o inteligível é o que está além da dimensão psicológica do sujeito e, por isso mesmo, oferece um ponto de apoio objetivo para a construção do conhecimento.

Parece-me interessante, nesse sentido, que os filósofos gregos tenham explicado a percepção intelectual usando uma analogia com a visão (o termo moderno teoria é derivado do termo grego para “assistir” ou “observar”). Quando vemos algo, nós sabemos intuitivamente o que estamos vendo, mas é difícil traduzir essa visão em palavras; e por melhor que seja nossa descrição, ela será sempre apenas uma aproximação da visão direta. Isso me parece ser uma ilustração perfeita da diferença entre a atividade filosófica e o conhecimento sistematizado: o filósofo procura constantemente adquirir essa ‘visão’ do inteligível e ocasionalmente consegue vislumbrar algo dessa dimensão; o conhecimento sistematizado, por sua vez, é apenas uma tentativa de construir um edifício lógico a partir desses vislumbres. Essa construção é necessária para poder falar dessa visão original, mas ela nunca pode ser identificada com a própria visão - além disso, uma nova percepção do inteligível pode tornar necessária a reconstrução todo o edifício para que esse permaneça coerente com o que foi percebido.

É interessante notar que a visão é também algo intrinsecamente imperfeito. Se a iluminação for fraca, se o objetivo estiver distante, ou mesmo se houver muitos elementos semelhantes em um mesmo cenário, é fácil nos confundirmos ou projetarmos algo da nossa imaginação sobre o que nossos sentidos captaram. Creio que isso não estava ausente das considerações dos filósofos gregos ao usar essa analogia. Hoje em dia, o termo teoria adquire um valor forte, algo próximo de um conhecimento exato. No entanto, se entendermos o termo como percepção intelectual somos forçados a perceber a fragilidade desse ato: ele equivale a ter um vislumbre do inteligível, a perceber algo da realidade; percepção esta que inevitavelmente nos chega misturada com nossas projeções, com o ruído do ambiente e com a falta de distinção própria dos objetos de sutil composição. O esforço filosófico, portanto, consiste justamente em apurar essa visão e, por isso, faz sentido pensar na filosofia mais como uma atividade do que como um conhecimento. Ela é fundamentalmente a tentava de enxergar uma porção maior do inteligível, e de fazê-lo com mais clareza. Mas a filosofia é também conhecimento, pois embora esse esforço não permita ao filósofo criar um retrato perfeito da realidade, ele consegue de todo modo perceber algo dela, e esse algo é o conhecimento filosófico possível até aquele momento. A filosofia, portanto, começa com um ato de percepção intelectual e, depois, se traduz em um retrato imperfeito desse ato, e esse retrato é justamente o conhecimento filosófico.

Por isso, entendo a relação do homem com o conhecimento do seguinte modo: estamos todos imersos em uma realidade que não conhecemos bem; a vida passa rápido demais, e nossa atenção raramente se fixa em alguma coisa por tempo suficiente para compreendê-la. Enquanto isso, nossa imaginação e os lugares comuns da linguagem formam um conjunto de hábitos intelectuais que nos protegem do esforço de tentar realmente enxergar algo da realidade. O homem comum - que pode ter nominalmente a profissão de cientista ou filósofo - é justamente aquele que é passivamente arrastado por esses hábitos e passa toda sua vida sem conseguir ir muito além deles; ele percebe algo da realidade, mas essa percepção logo se perde em meio ao ruído do ambiente. O filósofo é o sujeito que tenta parar o tempo: como no mito de Er, o filósofo lança uma olhar sobre toda a existência, como se estive acima dela. O problema, claro, é que isso dura apenas um instante, e o mesmo filósofo logo mergulha novamente no tumulto da existência, quase esquecendo por completo o que “viu” naquele instante. Por isso, embora o filósofo consiga aprender algo do inteligível, o conhecimento filosófico é sempre essa mistura de ruído e intelecção e, por isso, sempre algo incompleto, imperfeito, e sujeito a reformulações contínuas. Com isso em mente, podemos conciliar a experiência do cético, que não quer reduzir a realidade a um esquema abstrato, e a experiência do dogmático, que quer preservar a experiência da percepção da realidade.

Voltando agora ao problema inicial, podemos compreender melhor a relação entre filosofia e ciência. O espírito científico quer sempre progredir: catalogar mais fenômenos, conduzir mais experimentos, construir mais modelos. O espírito filosófico, por outro lado, caminha na direção inversa: ele procura remeter os princípios fundamentais do conhecimento para a dimensão do inteligível, freqüentemente descobrindo algo que lhe leva a repensar todo o edifício em novas bases. A ciência busca expandir a aplicação de certos princípios a novos elementos da realidade; a filosofia busca expandir nossa compreensão desses princípios, ampliando a própria visão que temos da realidade; um movimento leva à sistematização e o outro nos leva a reestruturar nossos sistemas. Não são, portanto, movimentos antagônicos; são etapas complementares do mesmo processo de tentar compreender o mundo, em toda a expressão do termo.

Portanto, quando nos afastamos de problemas específicos para retornar à filosofia, o que estamos tentando fazer é expandir nossa visão do problema inicial - o que talvez nos leve a descobrir que o problema em questão nem era um problema real, ou que talvez fizesse parte de outro problema, ou ainda que talvez estivessemos misturando questões inteiramente distintas entre si. Por isso, a filosofia é um campo de problematização e não de solução: sua função, de certo modo, é desmontar discursos estabelecidos para abrir espaço para novas intuições sobre a realidade. Evidentemente, esse é um trabalho tanto negativo quanto positivo: abandonamos um discurso antigo porque alcançamos uma nova visão sobre o que estamos tentando entender.

Nesse sentido, é interessante notar que o aprendizado filosófico é algo bastante distinto da “aquisição de cultura”, como se julga com tanta frequência. Adquirir cultura é adquirir um conjunto de informações e explicações sobre o mundo; aprender filosofia é buscar princípios inteligíveis que freqüentemente levarão a uma problematização de qualquer cultura. Por isso mesmo, lemos a obra de Platão pelo que há de filosófico nela, e não simplesmente em busca da cultura grega. Evidentemente, é imprenscindível conhecer essa cultura para interpretarmos seus diálogos, mas ela é apenas o meio que Platão utilizou para encontrar algo que estava muito além do horizonte intelectual do seu tempo. Por isso, mesmo para alguém que admira os filósofos clássicos, estudar filosofia não é tentar se tornar grego. É tentar refazer o esforço que alguns gregos em particular fizeram ao tentar perceber algo que estava além da cultura de suas épocas.

Partindo disso, podemos começar a entender porque a relação entre filosofia e política é especialmente problemática. A linha que separa a discussão política da luta ideológica é sempre muito tênue. Os ideólogos possuem uma explicação definitiva sobre o mundo e se dedicam a tentar convencer os outros da veracidade dessa explicação. Os filósofos, por outro lado, estão sempre prontos a problematizar qualquer explicação, caso encontrem indícios que os levem a raciocinar em outro caminho. Por isso, toda ideologia tende se tornar um bloco explicativo rígido, enquanto a filosofia é o esforço constante em descobrir os aspectos da realidade ignorados pelas explicações correntes. Por sua própria natureza, portanto, o filósofo é sempre alguém que não se harmoniza com corrente cultural ou política alguma; ela pode eventualmente ter preferências nesse campo, mas nunca se ajusta perfeitamente a elas, justamente por estar sempre voltado para a busca do inteligível que, por definição, está fora da cultura e de qualquer discurso pré-estabelecido.

De volta para o futuro

Posted in Uncategorized on September 4th, 2009 by lucasmafaldo – Be the first to comment

Uau: cinco meses de intervalo entre um post e outro. Em minha defesa, digo apenas que cumpri a principal promessa que abriu a nova encarnação desse blog: finalmente terminei a dissertação (nada de parabéns por enquanto, please, ainda tenho que sobreviver ao massacre da banca de defesa…brrrr). Espero voltar a escrever ao menos semanalmente - Mecius Modlbug style - embora não tenha nenhuma grande teoria para oferecê-los como o sarcástico reacionário supralinkado (sem hífen? ou made up words have special rules?). Mais problemas, inquietações, Oxford commas, e frases demasiadas longas na próxima semana, no mesmo batcanal. Inté.

Filosofia e política (I): a prioridade da filosofia

Posted in Uncategorized on September 4th, 2009 by lucasmafaldo – 1 Comment

Comecei a me interessar por política muito antes de estudar filosofia. No entanto, logo que comecei a estudá-la, percebi que devia considerá-la como um campo de discussão, ou talvez de conhecimento, intrinsecamente mais fundamental do que os demais. Em outras palavras, a filosofia não era uma “espécie do mesmo gênero” da psicologia, sociologia ou biologia; ela deveria, na verdade, ser considerada um gênero a parte.

Isso me ocorreu logo no início da graduação em psicologia. Bastante empolgado, comecei a ler sobre as disputas entre as várias correntes e a me perguntar o que aquela multiplicidade de sistemas implicava para a investigação sobre as questões básicas da psicologia. Por isso, vi-me forçado a estudar epistemologia, e depois teoria do conhecimento, para tentar entender o fundamento dessas divergências. Em outras palavras: esse foi o “espanto” que me levou a estudar filosofia.

Claro que aí me deparei com o mesmo problema: há ainda mais escolas filosóficas que escolas de psicologia. No entanto, por trás, ou por baixo, ou ainda em cima (escolha o leitor sua posição preferida) de boa parte das divergências entre escolas filosóficas, existiam algumas noções gerais que me pareciam razoáveis; principalmente, a de que a filosofia é o campo de investigação dedicado justamente aos problemas que, por serem instrisecamente amplos demais, ou fundamentais demais, escapavam ao campo de qualquer ciência específica. Por exemplo, que exista uma ciência que estuda a biologia dos seres é bastante razoável. Mas será possível uma ciência que estude a cientificidade da biologia? É a velha história: existem regras, mas não existem regras para escolher regras; existe um método, mas não um método para escolher métodos. Toda ciência, portanto, parece se apoiar em algo que permanece externo, e prévio, à própria ciência: e isto é a filosofia.

Certamente essa diferença de gênero é em grande parte camuflada por causa da extensão da burocracia universitária. O observador externo olha para a universidade e, vendo os cursos de Psicologia, Direito e Serviço Social ao lado do curso de Filosofia, conclue imediatamente que todos esses termos representam espécies do mesmo gênero, isto é, que cada um desses termos assinalam profissões diferentes. Para piorar ainda mais as coisas, esses observadores se matriculam na instituição, não percebem o engano inicial e logo passam a acreditar que pertecem a algo como uma “classe profissional de filósofos”. O problema certamente tem uma dimensão sociológica e política - que passa pela reivindicação da obrigatoriedade do ensino de filosofia para garantir o emprego dos novos bacharéis - mas vamos nos contentar por ora em discutir sua dimensão epistemológica.

Por causa da natureza da competição burocrática - assunto que merece um post à parte - todo membro da universidade entende o que acabo de afirmar como a defesa de privilégios para um dos grupos de “pesquisadores”, ou seja, como se de algum modo eu estivesse reivindicando vantagens para o filósofo frente aos físicos, químicos e engenheiros - que realmente são aqueles que encontram resultados mais palpáveis em seus estudos. No entanto, não é disso que se trata: a prioridade da filosofia em relação às pesquisas particulares não significa que haja uma distinção entre dois grupos de pesquisadores ou mesmo entre duas etapas de uma pesquisa. A distinção é de ordem lógica e cognitiva, por assim dizer; e me parece que não é nem mesmo exatamente de ordem cronológica.

Encontramos um exemplo bastante favorável a essa posição em Ludwig von Mises (exemplos não são provas, eu sei, mas posts de blog não são tratados; são ensaios que, antes de provar, pretendem apenas insinuar), autor de um monumental tratado de economia. É verdade que a economia é um caso-limite; mas se não chega a ser definitivamente uma das hard sciences, é ao menos distante o suficiente das humanidades para que não a acusem de ser mera literatura; por isso, serve ao meu propósito de mostrar a prioridade da filosofia em relação à ciência em geral. Dêem uma olhada ao menos no indíce do livro do velho Mises (antes, linkado no original, e aqui, para a tradução do Donald Stewart Jr. no OrdemLivre.org). Antes de mergulhar nos problemas priopriamente econômicos - sistema monetário, teoria dos preços, valor do trabalho - ele se dedica cuidadosamente a discutir os princípios fundamentais utilizados na discussão subseqüente. É possível discutir se esses princípios são realmente bons - há quem se incomode com os sinais de kantismo - mas é inegável que esses princípios são ao mesmo tempo necessários para a discussão científica e externos à ciência da economia propriamente dita. É necessário, portanto, uma filosofia da economia para sabermos em que caminho a ciência econômica deve prosseguir (e, talvez, o inverso também faça algum sentido: a observação da prática científica alimenta a reflexão sobre os princípios). Mas os economistas não precisam ficar apreensivos, nem os professores de filosofia, assanhados; não estamos pregando a subjugação de um departamento a outro; estamos falando, isso sim, da distinção entre dois tipos de funções “cognitivas’, por assim dizer, que o próprio Mises, aliás, reune na mesma pessoa.

Nos últimas parágrafos, evidentemente, toquei em uma série de problemas complicados, e a prudência manda alerta que há, evidentemente, várias nuances que só poderiam ser resolvidas com um estudo mais cuidadoso da história da ciência e das discussões filosóficas sobre o assunto - estudo que ainda não fiz, nem provavelmente farei no prazo de alguns anos. No entanto, creio que isso é suficiente para apontar uma das noções que adquiriram uma posição fundamental no modo como penso sobre essas questões: antes dos problemas específicos, há esses problemas fundamentais, e destes cuida a filosofia.

Quando entramos na política, portanto, encontramos uma série de discussões que, a meu ver, deveriam ser remetidos antes ao seu fundamento filosófico. Questões como a definição de estado, de bem público, de coerção, de mercado, de direitos humanos, deveriam vir muito antes da defesa de posições políticas específicas. Isso, claro, se quisermos discutir filosofia política, e não meramente entrar em uma competição ideológica. Por isso mesmo, creio que ao invés de inundá-los com minhas opiniões, nosso tempo será melhor gasto discutindo alguns desses problemas fundamentais - começando, como acabamos de fazer, pela necessidade mesma de voltar aos fundamentos. Esse é, portanto, o objetivo dessa série de posts que agora se inicia - e que, aviso, progredirá por caminhos tortos e cronologia desconhecida. Como tudo na vida, aliás.

Back in Business

Posted in Uncategorized on April 2nd, 2009 by lucasmafaldo – Be the first to comment

Finalmente, estou de volta ao blog. É aquela velha história - o tempo, as obrigações, as prioridades, o cotidiano -, as pequenas e grandes coisas vão chamando nossa atenção, e eu fui repetidamente adiando o dia retorno. No começo, estava ocupado com o Aristoi, andando para cima e para baixo tentando descobrir como viabilizá-lo; em seguida, meu estágio no Cato começou a tomar a maior parte do meu tempo; por fim, quando voltei a Natal, precisei correr para terminar a dissertação a tempo da qualificação. Os últimos meses, no entanto, foram antes de mais nada um período de soul-searching. Desde que comecei a escrever na internet, tenho estado ocupado com projetos paralelos - projetos demais - de modo que não tenho conseguido me dedicar a cada um com a atenção que merecem. 

Tenho, portanto, tentado priorizar as coisas com mais cuidado, para decidir onde concentrar meus esforços. Ainda não sei bem qual será o futuro do Aristoi - como tenho dito aos que me perguntaram por e-mail - mas devo defini-lo nas próximas semanas. No entanto, estou decidido que a vida acadêmica faz parte desse futuro e, por isso, certamente gastarei boa parte do meu tempo nessa direção.

É verdade que há muito a ser dito contra a universidade; tanto contra o sistema universitário contemporâneo, como mais ainda contra sua versão brasileira. No entanto, apesar de todos seus defeitos - a burocracia, os militantes profissionais, o baixo nível dos alunos - ela é ainda é o lugar por excelência  onde ocorrem as discussões intelectuais e onde está a maior concentração de pessoas com esses interesses. Decidir ficar fora da universidade, por princípio, é decidir ficar fora do centro das discussões - o que significa tanto perder a universidade de aprender com o que há de bom lá dentro, como a oportunidade de realmente influenciar o debate.

É verdade que os grandes gênios podem adquirir uma influência imensa fora dos parâmetros tradicionais, mas - eu não sei quanto a você, leitor - eu não sou gênio de tamanho algum; o que tenho a oferecer é uma vida de trabalho convencional que - eu espero -  possa gerar algo significativo com o acúmulo dos anos; e para realizar isso, o ambiente universitário ainda é melhor lugar. Além do mais, é igualmente verdade que o isolamento pode gerar efeitos muito perniciosos e bloquear qualquer progresso pessoal. Sem falar nas considerações mais práticas - que também são importantíssimas para qualquer projeto de vida - namely, a exigência de diplomas para se exercer determinadas funções, como ensinar no nível superior, por exemplo.

Enfim, todos essas razões foram se acumulando em meu espírito, e fui me convencendo de que devo, ao menos durante os próximos anos, priorizar a carreira acadêmica. O que envolve, entre outras coisas, escrever artigos para revistas acadêmicas e menos para a internet. Isso significa que não retomarei o estilo quase jornalístico que adotei há algumas reencarnações desse site, comentando passo a passo os desenvolvimentos da política americana, preferindo escrever artigos mais elaborados, que possam ser publicados em periódicos acadêmicos. Evidentemente, não deixarei de eventualmente escrever artigos de opinião e comentar questões mais leves e, quando o fizer, publicarei o resultado aqui.

Sim, continuo prolixo como sempre… hábito que a dissertação só tem alimentado. Vamos ver se, dessa vez, passo a escrever com mais brevidade e freqüência.